quinta-feira, 29 de abril de 2010

A long time ago



Por isso a terça-feira arde como petróleo quando me vê chegar com minha cara de prisão, e uiva no seu transcurso como uma roda ferida e dá passos de sangue quente em direção à noite. E me empurra para certos lugares, para casas úmidas, para berçários onde os recém-nascidos saem pelas janelas, para certas sapatarias com cheiro de vinagre, para ruas tristes como cemitérios.
Há pássaros de cor de enxofre e terríveis intestinos pendurados nas portas das casas que odeio, há dentaduras esquecidas em uma cafeteira, há espelhos que deveriam ter chorado de vergonha e espanto, há guarda-chuvas em todas as partes, e venenos e umbigos.
Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos, com fúria, com esquecimento. Passo, cruzo escritórios, escolas e pátios onde há roupas penduradas em um arame: camisetas, toalhas e fraldas que choram lentas lágrimas sujas.

(+- 1997)

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